O Notícias de Tábua continua a ronda de entrevistas aos presidentes de junta e uniões de freguesia do concelho de Tábua. Nesta edição, a entrevista decorreu em Candosa, na sede da Junta de Freguesia, com Elsa Gouveia, que assume agora a presidência do executivo, depois de já ter exercido funções autárquicas no mandato anterior. Nesta conversa, a autarca aborda as prioridades para o mandato, o apoio à população envelhecida, a preservação da tradição oleira, o dinamismo associativo e os desafios da desertificação e da falta de emprego.
Notícias de Tábua (NT) – Já integrava o executivo no mandato anterior, mas assume agora a presidência da Junta. Se tivesse de eleger uma prioridade para este mandato, qual seria?
A minha principal prioridade para este mandato é continuar com o apoio às pessoas. Somos uma população muito idosa e que precisa cada vez mais de acompanhamento. Falo de apoio em termos de levá-las às consultas, à farmácia, ajudá-las nas compras. Essa é uma necessidade muito grande na nossa freguesia.
NT – Esse apoio de proximidade tem sido uma aposta continuada da Junta?
Sim. As pessoas muitas vezes não vivem sozinhas, vivem com familiares, mas esses familiares trabalham e passam grande parte do dia fora. Por isso, precisam sempre de alguém que as acompanhe ao centro de saúde, à farmácia ou a outras deslocações. A Junta já desenvolve esse trabalho há bastante tempo. Nós levamo-las à farmácia, esperamos, vamos às consultas e aguardamos até ficarem despachadas. Pretendemos continuar com esse serviço.
NT – Para além do apoio social, há outras prioridades definidas para o mandato?
Há, sim. Outra prioridade, que para mim acaba até por ser muito importante, prende-se com o facto de Candosa ser uma terra de oleiros. Infelizmente, o último oleiro faleceu recentemente, no passado mês de novembro, e não houve ninguém que desse continuidade ao seu trabalho.
NT – Que resposta pretende dar a essa perda de uma tradição tão marcante?
A intenção, tanto minha como do executivo da Junta de Freguesia, é criar um centro interpretativo aqui na aldeia, algo como um Museu do Oleiro. Queremos mostrar às pessoas, sobretudo aos jovens, como era a olaria, como as pessoas viviam antigamente em Candosa e qual a importância que esta atividade teve para a comunidade.
NT – Que peso teve a olaria na história da freguesia?
Teve um peso enorme. Candosa viveu muito da olaria, foi uma das principais fontes de rendimento da população. No século passado, praticamente todas as casas produziam peças de barro. Havia muitas pessoas a trabalhar no barro, faziam as peças, juntavam-se depois para as cozer num forno comunitário e, mais tarde, iam vendê-las às feiras.
NT – Há alguma memória pessoal ligada a essa atividade?
Lembro-me muito bem do Zé Padeiro, que era o mais conhecido aqui. Ele cozia a louça no chamado forno da louça e depois vendia nas feiras. Recordo-me, por exemplo, de ele ir à feira de São Bartolomeu Dias, carregando um trator ou uma camioneta cheia de louça. Era assim que ele vivia e, em menor escala, havia muitas outras pessoas que faziam o mesmo.
NT – A freguesia já fez alguma homenagem a essa tradição?
Sim. A Junta de Freguesia já fez um monumento ao Oleiro, que está numa zona central da aldeia de Candosa. Agora, pretendemos avançar para esse museu, ou centro interpretativo do Oleiro, para demonstrar exatamente como se trabalhava o barro.
NT – Esse projeto também pretende garantir a transmissão desse saber às gerações mais novas?
Exatamente. Hoje em dia já não há ninguém a fazer esse trabalho. Aqui, era o senhor Abílio que ainda mantinha essa tradição, mas não houve ninguém que lhe desse continuidade. Queremos mostrar como era vivido esse trabalho, como era feito, e perpetuar essa memória coletiva que fez parte da vida da comunidade e que teve grande importância, tanto a nível pessoal como económico.
NT – Acredita que esse projeto pode despertar interesse em futuras gerações?
Não sabemos se, com o museu e com as demonstrações, alguém poderá vir a interessar-se e querer, um dia, seguir este ofício. Mas, para além de homenagear o oleiro, é também uma forma de valorizar a própria terra e aquilo que foi a sua imagem de marca.
NT – Falou do envelhecimento da população. Que outras respostas sociais existem atualmente na freguesia?
Para além do apoio aos idosos, temos o jardim de infância, que é da responsabilidade da Junta de Freguesia. É um edifício bastante recente, inaugurado no mandato anterior. Temos também o centro de dia, que já está a funcionar. A Junta passa pelas casas das pessoas e vai buscá-las para frequentarem o centro. É uma nova valência muito importante para os fregueses.
NT- Apesar do envelhecimento, Candosa mantém um forte dinamismo associativo. Como caracteriza essa realidade?
Candosa é uma freguesia conhecida pelo seu movimento associativo, cultural, recreativo e desportivo muito ativo. Temos o clube de futebol Vasco da Gama, o grupo de jovens do qual também sou presidente, a associação do Centro Cultural e Recreativo, ligada ao rancho folclórico, a associação de socorro social, e em Várzea o Clube Recreativo Varzeense, que também tem rancho.
NT- Esse movimento traduz-se em muitas atividades ao longo do ano?
Sim, são inúmeros eventos ao longo do ano. Um dos mais próximos é o Carnaval, organizado pela Junta de Freguesia. O desfile de Carnaval, ao domingo, é já um cartaz antigo e junta muita gente. Para além disso, realizamos a festa de Natal, também promovida pela Junta, que envolve os idosos e as crianças da freguesia.
NT – Que outros apoios presta a Junta às coletividades e à comunidade?
Ao longo do ano, apoiamos os peregrinos a Fátima, disponibilizando carrinhas e o pavilhão. Tentamos sempre apoiar, dentro das nossas possibilidades, as diversas coletividades da freguesia. Apostamos muito no associativismo porque é uma forma de divulgar o nome da freguesia e de contribuir para a fixação da população, sobretudo a mais jovem.
NT – A desertificação é um problema sério em Candosa?
É, sem dúvida. Cada vez nascem menos crianças e a população envelhece cada vez mais. Dou-lhe um exemplo: no primeiro ano em que estive no executivo da Junta faleceram 33 pessoas e nasceram apenas duas crianças. É um saldo muito negativo. Candosa já foi uma grande freguesia, com muita juventude.
NT – O que levou à saída dessa população mais jovem?
Muitos emigraram para procurar uma vida melhor, o que é natural. Outros foram para Tábua ou para fora do país. Houve jovens que emigraram, fizeram vida fora, tiveram filhos e até netos que já lá ficaram, sendo depois difícil trazê-los de volta.
NT – A falta de emprego é um dos principais entraves à fixação de população?
Sim. Candosa teve a Cerâmica de Candosa, uma empresa que empregava muita gente, com produção de tijolos, telhas e também uma área ligada à madeira, que fazia caixas para fruta. O encerramento dessa fábrica deixou muitas pessoas sem emprego. Hoje, quem trabalha vai maioritariamente para Tábua ou para outros locais. Aqui, tirando os cafés, que são explorados pelos próprios, praticamente não há entidades que criem postos de trabalho.
NT – É possível inverter essa situação?
Não é fácil. Somos uma aldeia pequena e em termos de emprego é muito difícil. Por mais que se tente, não é fácil conseguir que empresas venham para cá e criem postos de trabalho. As pessoas acabam por ir trabalhar para Tábua ou para fora.
NT – Ainda assim, mantém-se otimista relativamente a este mandato?
Sim, mantenho-me otimista. Gostava muito que, no final destes quatro anos, pudesse dizer que conseguimos atrair uma empresa, criar emprego e dar trabalho às pessoas. Seria muito bom. Apesar de tudo, continuo otimista e vou dar o meu melhor para que isso aconteça.
NT – Quer deixar uma última mensagem aos fregueses?
Vou continuar a trabalhar como tenho feito até agora, dando o meu melhor, em proximidade com as pessoas, para contribuir para o desenvolvimento da freguesia e para melhorar a qualidade de vida de quem cá vive.









