O incêndio que, no passado dia 17 de setembro, irrompeu com toda a força no concelho de Tábua destruiu a casa de Fiona Martin, uma cidadã de nacionalidade inglesa que, há 18 anos, se radicou na freguesia de Póvoa de Midões, onde se deixou apaixonar pela paisagem e pela tranquilidade que a natureza lhe proporcionava, tendo mesmo apostado num negócio de Alojamento Local.
Porém, na manhã daquele fatídico dia, a calma deu lugar à aflição. “Quando vi o fumo muito preto e as chamas, o meu coração começou a bater muito depressa. Já tinha vivido o incêndio de 2009 e o de 2017, mas com este agora senti muito medo” recorda Fiona Martin. A mulher de 53 anos, que vive com a filha Cloe de 17, ainda teve tempo de retirar as botijas de gás e abrir a rega dos seus espaços verdes. A filha já estava a salvo na Póvoa de Midões e, na noite anterior, tinha pedido aos hóspedes que se encontravam na sua casa para abandonarem o local.
Com a aproximação das chamas que consumiam os eucaliptos já próximo da sua casa, Fiona não teve outra alternativa que não fosse fugir dali. “Fui-me embora, porque era muito perigoso”, conta.
Por indicação das autoridades, a mulher e a filha só puderam regressar a casa, situada na zona do vale da Póvoa numa área de eucaliptal, na manhã do dia seguinte. “Quando vi, senti-me muito mal porque esta era a minha vida, o meu trabalho”, mas rapidamente Fiona se alegrou ao perceber que os seus animais (um cão, um gato e as cabras) tinham escapado ao fogo, assim como o seu jardim que “está bom”.

“Preciso pensar no lado positivo. Não posso pensar só no lado mau, porque fico muito depressiva”, refere, considerando que mais triste foi o que aconteceu aos três bombeiros que “perderam a vida por este fogo”. “Quando penso nas suas famílias…”, comentou visivelmente emocionada.
O momento é, por isso, de arregaçar as mangas e recuperar o que o fogo destruiu. Poucos dias depois do trágico incêndio, Fiona contou com a ajuda de uma equipa da Câmara Municipal de Tábua para a remoção dos escombros e realização de trabalhos de limpeza. Um grupo de amigos também disse “presente” na hora de ajudar.
“Agora tenho que reconstruir a casa. Pode demorar um ou dois anos, mas depois volto a ter uma casa”, sublinha, notando que o que mais lamenta foi a perda das memórias como o primeiro desenho da sua filha e a sua primeira fotografia. “Perdi as minhas memórias e senti-me mal demais. O resto posso comprar”, frisou.
O fogo afetou sobretudo o piso superior da casa. A parte inferior onde se situa a cozinha, sala, casa de banho e outras divisões não sofreu com o fogo, mas não tem condições para ser habitada devido à escorrência de águas e à instabilidade do edifício.
Provisoriamente, Fiona e Cloe estão instaladas numa tenda típica da Mongólia (Yurt), sendo esta também uma área de atividade da mulher que já procedia à produção e venda destes equipamentos.
“Prefiro ficar no meu terreno, com os meus animais. Preciso ficar aqui para continuar com o meu jardim e cuidar das minhas árvores”, refere. Fiona sabe que, agora, é uma questão de tempo até que o negro das cinzas dê lugar ao verde da natureza. “Com a chuva o verde vai voltar. É aqui que quero continuar. Este é um lugar que é verdadeiramente bonito. Muito lindo, com natureza, o rio”, sublinha.
Fiona está a par dos apoios anunciados pelo Governo para a recuperação das habitações afetadas pelo fogo, mas também conta com a resposta do seguro que contratou para a casa e para o Alojamento Local. “Tenho tudo legal e espero que o seguro cubra os prejuízos”, explicou.

Ainda que visivelmente abatida e agastada pelo que se passou, Fiona garante ter “força” para se reerguer”, até porque não pode alterar o que aconteceu. Sem condições para receber hóspedes, a mulher quer manter o negócio das tendas.
O apoio que recebeu dos amigos tem sido determinante para que Fiona arrepie caminho. Afinal, a mulher nunca esteve sozinha. “No dia a seguir ao incêndio, a Câmara Municipal, os bombeiros, a GNR e a assistente social vieram aqui ver o apoio que era preciso”, conta, considerando que a ajuda do Município de Tábua tem sido “bravo”.
No processo de recuperação, Fiona conta com o entusiasmo da filha que, este ano, iniciou o seu ciclo de estudos na Eptoliva, onde também tem sentido o apoio dos novos amigos. “Ela pensa no futuro e não pensa negativo”, refere com satisfação.

A zona afetada pelo incêndio é habitada por uma larga comunidade de cidadãos estrangeiros que também sofreram prejuízos, ainda que em menor escala. É o caso de Tomas que perdeu a tenda que lhe servia de casa e agora está a viver numa roloute.
Na rede social WhatsApp foi criado um grupo de pessoas que se tem mobilizado no apoio a estes estrangeiros, sobretudo na limpeza de áreas ardidas e remoção dos destroços. Fiona também contou com a ajuda de alguns elementos do grupo.
“Houve um grande número de pessoas afetadas e muitos prejuízos. Ajudamo-nos uns aos outros. É o que podemos fazer”, conta o português Filipe Caetano, residente em Casal da Senhora ( Midões).









